Uma doença com milênios de história
Doença descrita desde o antigo Egito, seu nome deriva de ásthma, termo grego ligado à idéia de ofegância, dificuldade para respirar. O termo aparece na medicina ocidental no Corpus Hippocraticum, tratado de medicina criado pela escola de Hipócrates em V-IV a.c. Mais tarde, nos séculos I-II d.c., Areteu da Capadócia utilizou o termo para descrever a síndrome que conhecemos hoje, com falta de ar, tosse e aperto no peito recorrentes. No século II d.c. Galeno a descreveu para a cultura greco-romana, dentro da sua interpretação de desequilíbrio de humores, mas já apontando que tratava-se de um distúrbio das vias aéreas (brônquios). Bem mais tarde, no século XII, Maimônides escreveu um livro sobre a doença em árabe. Nos últimos 100 anos, grande progresso foi feito a respeito do seu entendimento, das suas causas, e do seu tratamento.
O que é asma brônquica?
A asma brônquica pode ser entendida como uma síndrome clínica que afeta os brônquios, causando inflamação do epitélio que reveste estes condutores de ar para nossos alvéolos, a partir de uma série de estímulos ambientais. Estes estímulos são diferentes para cada paciente. Também são diferentes os mecanismos por trás desta resposta para cada paciente. Temos, então, uma conexão entre vias aéreas, genética, e o ambiente, que muito bem define a asma. O quadro clínico clássico é de tosse seca crônica, recorrente, predominantemente noturna, acompanhada de crises de falta de ar, também mais comuns à noite, e chiado no peito, com uma sensação de aperto. Falta de ar para esforços ou exercícios também pode ocorrer. Como a genética é importante, outros casos em parentes de primeiro ou segundo grau costumam ser evocados.
Os gatilhos: alérgicos, físicos e ocupacionais
Os estímulos podem ser alérgicos. Pequenas partículos de origem animal ou vegetal, como ácaros domiciliares, baratas, mofo, pólens de árvores e gramíneas, ou pêlos de animais como gato ou lã podem desencadear asma em pessoas predispostas, chamadas de alérgicas ou atópicas. Tais pacientes perfazem um contingente significativo dentre os asmáticos. Mas existem também os asmáticos não-alérgicos, nos quais estímulos físicos como troca abrupta de temperatura, umidade, pressão atmosférica, ou poluição do ar são a principal causa. Em outros, partículas presentes no ambiente de trabalho podem ser o gatilho, caracterizando uma asma ocupacional. Em alguns pacientes asmáticos, a obesidade também pode ser um fator relevante atuando como cofator inflamatório. Em qualquer asmático, o exercício físico pode desencadear sintomas, denominada então asma ao exercício.
A inflamação como protagonista: o papel do eosinófilo
Em qualquer caso, o nariz cumpre um papel fundamental, como estrutura que detecta partículas ou estímulos físicos e os traduz em estímulos químicos e imunológicos responsáveis pela inflamação. Podemos entender este processo, de certa forma, como sensibilidade exagerada, ou hipersensibilidade. Então, na asma, não é que você sofra de deficiência imunológica, pelo contrário, é uma resposta exagerada, equivocada a uma série de estímulos que por si só não seriam nocivos. Na maioria dos pacientes, uma célula em especial é recrutada para atuar logo abaixo do epitélio, chamada eosinófilo. O reconhecimento de que a asma não é apenas uma doença de fechamento rápido dos brônquios — broncoconstrição — mas de que trata-se de uma doença inflamatória crônica revolucionou o seu tratamento a partir da década de 80.
As crises de asma: quando os brônquios fecham
Sob a camada epitelial dos brônquios temos uma camada muscular que responde a mediadores inflamatórios gerados neste processo, contraindo-se e reduzindo o calibre das vias aéreas. É este componente que geralmente é percebido pelos paciente nas crises de asma: piora rápida dos sintomas, com aperto no peito, falta de ar, tosse geralmente seca mas podendo haver expectoração, e a sibilância, o "chiado no peito", que tanto caracteriza a doença. Tais crises podem ser graves, inclusive fatais, e é trágico que ainda em 2025 morram pacientes com asma no Brasil. E não são poucos: em média de 2000 a 2600 óbitos por ano nos últimos 10 anos, com aumento de 34% neste período.
Quantas pessoas têm asma — e o que isso significa para Caxias do Sul?
A asma é uma doença crônica comum, afetando crianças e adultos. Estimativas nacionais recentes sugerem que a asma afeta entre 6 a 10% dos adultos e 12 a 19% de crianças e adolescentes, porém estes dados são difíceis de interpretar, e a asma ainda pode ser uma doença subdiagnosticada. Como seria de se esperar em uma doença tão afetada pelo fator ambiental, a geografia influencia muito a sua prevalência, sendo que clima mais frio e morar em grandes cidades como regra tendem a aumentar o risco. Não temos dados específicos de nossa cidade, Caxias do Sul, mas a percepção é que temos aqui um conjunto de fatores climáticos, poluição, atividade industrial e comportamento do pólen na primavera que provavelmente nos coloca acima da média nacional em termos de prevalência de asma.
O avanço dos dispositivos inalatórios
Felizmente, contamos hoje com um arsenal terapêutico invejável para tornar a asma um problema de fácil convivência para a enorme maioria dos asmáticos. O avanço da tecnologia de dispositivos inalatórios praticamente aposentou os antigos nebulizadores, ineficazes e difíceis de levar consigo. Sprays e inaladores de pó seco dos mais diversos tipos e cabendo em todos os bolsos conseguem depositar as medicações no epitélio brônquico com mínima absorção pelo corpo, tornando o tratamento muito seguro a longo prazo. Para pacientes com dificuldade e crianças, os espaçadores vieram para ajudar na técnica inalatória. Porém a demonstração pelo médico e a correta escolha do dispositivo para cada paciente e a avaliação do uso correto são fundamentais para o sucesso no tratamento.
Os medicamentos disponíveis e a importância da adesão
Para a inflamação usamos corticosteróides inalatórios, como a fluticasona. Para relaxar o músculo liso, usamos beta-agonistas de curta/longa ação, ajustados para crises e alívio dos sintomas de acordo com cada caso. Combinando antialérgicos, tratamento da rinite e antagonistas dos leucotrienos, podemos aliviar os sintomas de forma muito consistente, podendo o asmático gozar de uma existência sem restrições. O mais importante, porém, é a adesão. E aí os dados mostram que não conseguimos os mesmos resultados comparados com outras doenças crônicas, como hipertensão arterial, por exemplo. É muito comum o entendimento equivocado de que a asma apenas ataca em crises, devendo o tratamento ser realizado quando houver sintomas. Na realidade, o maior sucesso é obtido com o uso contínuo de tratamento preventivo nos casos de moderada a alta gravidade.
Se você sofre desses sintomas e ainda não foi diagnosticado, ou se já foi, porém o tratamento não está surtindo o efeito desejado, procure um especialista em pneumologia. Podemos usar a história, a espirometria com teste do broncodilatador, exames de sangue e de alergias, e também raios-x para melhor definir o problema, e individualizar o tratamento de acordo com cada caso. De novo, hoje vivemos uma era onde os tratamentos são eficazes e em sua maioria acessíveis. A melhora da sua qualidade de vida pode estar a uma inalação de distância!