Por que a tosse é essencial para a nossa sobrevivência?
Tossir é algo que todos experimentam muitas vezes ao longo da vida. É praticamente impossível mesmo para o indivíduo mais saudável passar um ano sem alguns dias tossindo. Por que será?
A tosse, que é a terceira causa mais comum de busca por médicos, atrás apenas de dor e febre, deve ser compreendida como um sintoma mas também como um mecanismo de defesa, o mais importante das vias aéreas inferiores. As infecções respiratórias, sejam elas virais ou bacterianas, das vias aéreas superiores ou inferiores, são ainda as mais comuns afetando os seres humanos. Por isso, ao longo da evolução, desenvolvemos importantes mecanismos para sobrevivermos a estas infecções, como o clearance mucociliar, a filtração aerodinâmica de partículas, e sim, a tosse.
Vamos ver como exemplo a gripe, uma infecção aguda causada pelo vírus influenza. Geralmente esta infecção inicia na mucosa das vias aéreas superiores, o vírus infecta as células do nosso epitélio respiratório, que nos reveste da ponta do nariz até próximo aos alvéolos. Estamos repletos de nervos neste epitélio, que detectam o dano celular e ativam o reflexo de tossir, para que impeçamos o vírus de penetrar mais profundamente no sistema, nas vias aéreas inferiores, desencadeando um quadro mais grave, como uma traqueobronquite (infecção da traquéia e brônquios) ou mesmo uma pneumonia, potencialmente fatal. Neste processo, enchemos os pulmões de ar e exalamos em velocidade máxima, atingindo na traquéia velocidades entre 100 a 215km/h (!). Um enorme esforço mecânico que salva vidas! Então, da próxima vez que a tosse lhe causar desconforto numa infecção, lembre-se que é por um bom motivo. E tossir bem, com eficácia, pode resolver uma infecção mais rápido, portanto não reduza a tosse, utilize-a da forma mais eficaz possível.
Tossir bem, com eficácia, pode resolver uma infecção mais rápido — portanto não reduza a tosse, utilize-a da forma mais eficaz possível.
Quando não é uma boa ideia suprimir a tosse
Entendendo o propósito, podemos concluir que nem sempre é uma boa idéia utilizar medicamentos para diminuir ou sedar a tosse. Podemos estar ajudando os agentes infecciosos. É fundamental que o médico seja parcimonioso, e que espere pelo menos 5 a 7 dias antes de ceder aos apelos para fazer a tosse sumir. Sabemos do desconforto, mas precisamos usar o conhecimento. A maioria das tosses secundárias a processos infecciosos diminui a partir do sétimo dia, resolvendo completamente entre 10 a 14 dias sem intervenção médica. Por isso, a tosse aguda — com menos de 2 semanas de duração — raramente necessita de investigação, salvo outros sinais de gravidade, como febre que não responde, dor no peito, ou dificuldade de respirar.
Tosse subaguda: atenção a partir de 2 semanas de persistência
Frequentemente os processos infecciosos levam mais que 2 semanas para resolver, complicando com sinusites agudas ou traqueobronquites. Ainda, podem causar exacerbações de doenças respiratórias crônicas, como asma ou DPOC. Nestes casos, a tosse persiste por mais que 2 semanas, raramente mais que 8 semanas, sendo denominada tosse subaguda. A tuberculose também é uma possibilidade de tosse subaguda, principalmente nas populações de risco, como presidiários, imunossuprimidos ou desnutridos. Portanto, a persistência da tosse por mais do que 2 a 3 semanas é um bom indicativo da necessidade de consultar um pneumologista, especialmente se você for fumante! Além da história e do exame físico, podemos precisar de exames de imagem, de laboratório e de espirometria para uma melhor definição do diagnóstico e do tratamento.
Tosse crônica: quando o sintoma compromete a qualidade de vida
Existem situações quando a tosse se dissocia totalmente da sua função de mecanismo de defesa, tornando-se realmente um sintoma crônico com importante comprometimento da qualidade de vida. É a tosse crônica, com duração superior a 8 semanas, e seu diagnóstico e tratamento podem ser bastante difíceis, sendo sempre recomendada a avaliação com um pneumologista. Ao invés de simplesmente indicar um xarope ou comprimido para parar a tosse, o profissional dedicado deve conhecer as causas mais comuns do problema e tentar definir uma causa e tratamento específico.
A tríade patogênica da tosse crônica
Descrita internacionalmente por pneumologistas gaúchos, a tríade patogênica da tosse crônica, embora sofrendo algumas críticas recentemente, permanece como uma boa lembrança de causas a serem consideradas neste cenário. A tríade consiste na asma brônquica, na rinossinusite crônica (também chamada de síndrome da gota-pós nasal), e no refluxo gastroesofágico.
Asma brônquica
A asma brônquica é uma doença muito comum, que afeta aproximadamente 8% da população adulta, e que pode manifestar-se exclusivamente por tosse seca, sem a falta de ar e o chiado no peito que geralmente sugerem seu diagnóstico. A tosse costuma ser pior à noite, e variar conforme o clima ou a estação do ano. História prévia ou familiar de asma ajudam a pensar neste diagnóstico. Por isso a espirometria com teste do broncodilatador é uma parte importante da investigação da tosse crônica.
Rinossinusites crônicas
As rinossinusites crônicas são a doença crônica mais negligenciada nos adultos. São comuns, afetando mais de 20% da população adulta, variando conforme a região geográfica, mas especialmente problemáticas na serra gaúcha, por razões ainda indefinidas, possivelmente atmosféricas. A tosse costuma ser acompanhada de graus variáveis de congestão nasal, pigarro, sensação de muco que escorre atrás do nariz, fungar, e espirros. Podem ser alérgicas ou não, o que muda o tratamento. Além do exame físico, exames de imagem e de alergias são importantes para entender o problema.
Refluxo gastroesofágico (RGE)
O refluxo gastroesofágico (RGE) é certamente o componente da tríade que apresenta a maior dificuldade no seu diagnóstico e tratamento. Muitos pacientes possuem RGE sem a azia característica, sendo a tosse e o pigarro a única manifestação. A endoscopia não confirma que o RGE é a causa da tosse, e mesmo em pacientes onde o RGE é claramente o culpado, o tratamento usual não consegue corrigir o problema. Testes terapêuticos com inibidores da acidez gástrica e procinéticos costumam ser comuns neste cenário.
Além da tríade: outras causas comuns de tosse crônica
Outras causas comuns de tosse crônica que podem aparecer na investigação são: bronquiectasias, fibrose pulmonar de causas diversas, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), uso de inibidores da ECA para tratamento da hipertensão arterial, e distúrbios da deglutição de causas variadas.
Quando nenhum diagnóstico é encontrado: síndrome da tosse hipersensibilidade
Mesmo após 1-2 meses de investigação sistemática, existe um grupo de pacientes que perfaz 20-30% dos casos que persiste sem diagnóstico identificado. Tais pacientes são classificados como "síndrome da tosse hipersensibilidade". O tratamento geralmente utiliza medicamentos que atuam para a redução do reflexo a partir das terminações nervosas, como os gabapentinóides.
Espero que estas informações sobre como os pneumologistas entendem a tosse tenham sido úteis, lhe ajudando a definir como o seu problema se encaixa e se merece a atenção de um especialista! Se for o caso, não deixe de nos contactar! Até!